Conversa desenfreada e frenética sobre uma cidade.

Por Beto Stodieck – (09 de abril de 1972)

A poesia, desmistificadora dos esquemas totalitários que aprisionam a realidade, dissocia os falsos elementos que compõem esta, pra depois juntá-los num facho de luz e consciência. Não sei se me fiz claro, em todo caso lembro o verso de Caetano Veloso em “Maria Bethânia”: “Because we know that all the cities were rebuitl to be destroyed” (Porque sabemos que todas as cidades são reconstruídas para serem destruídas).

Do quarto andar de um sólido edifício vejo a reconstrução da Vila de Nossa Senhora do Desterro. (Por reconstrução pode-se entender muita coisa mais do que urbanismo. Às vezes me torno radical, sabe).

Temos vergonha do passado. Não suportamos nossas origens, nosso arcabouço, nossa arquitetura física e espiritual. Negamos o Desterro, vivendo em perpétuo exílio. Não nos conhecemos e não amamos porque não há mais lugar para a fantasia e a imaginação. Existe apenas a gravata, o consumo e todos obedecem como bons filhos da ordem e do progresso.

O despojamento da necessidade de posse (não estarei divagando em excesso?), assim como a consciência, é muito sofrido e requer muita prática e habilidade, my friend. É ficar nu diante da platéia intolerante, é ter culpa no cartório. Não se trata de discutir a lei, mas de destruí-la, como aquele prisioneiro de Attica.

A Ilha ainda é refúgio, mas tem seu tempo contado. Seus [?] cobrarão cada grão de areia e de suas águas farão divertimentos rigorosos. Deus vigia a Ilha night and day. Cuidado, que Ele pode ser tomado de fúria e lançar terrível maldição sobre aqueles que não suportam a liberdade de conversar nas esquinas.

Lagoa, Armação e Joaquina são três mulheres douradas de sal e mel, vestidas de bilro. Logo afogarão suas areias sob o lixo de 1980. Mística e açoriana, esconderijo de piratas, acolhedora do outono e do vento sul, a Ilha bebe o último copo de vinho verde e esconde a nudez de seu primitivismo em túnicas de tergal.

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