Manual do Mobilizador, ou “Enterrem as correntes”!

Capa do livro.

Há tempos R$9,90 não eram tão bem aplicados. Aproveitando a promoção da Livraria Catarinense, comprei o execelente “Enterrem as correntes”, do americano Adam Hochschild. Essa grande pechincha foi para mim a única coisa boa do tal “novo acordo ortográfico”. Por que apenas a Catarinense liquida os livros do português antigo ainda é um mistério. Vi a mesma edição na Saraiva por R$69,90! Quanto ao livro, é delicioso na forma e no conteúdo.

Hochschild não é apenas outro jornalista que compila com criatividade as suadas pesquisas de historiadores – e ganha muito dinheiro com isso. É isso também. Mas além de utilizar, meritosamente, pesquisas científicas, seu grande trunfo está no uso das biografias de vida dos principais personagens da história por ele narrada.

O livro trata do movimento pela abolição do tráfico de escravos na Inglaterra. O qual o autor considera o primeiro movimento reivindicatório da sociedade civil. “Escravos e outros subjugados rebelaram-se em toda a história, mas a campanha na Inglaterra foi algo nunca antes visto: foi a primeira vez que inúmeras pessoas ficaram indignadas com os direitos de outros e sustentaram, por muitos anos, esse sentimento. E o mais surpreendente é que se tratava dos direitos de pessoas de outra cor, em outro continente”.

Não se trata de um romance histórico, contudo o texto tem um quê de minissérie (ok, eu também entrei no acordo ortográfico…). Após tomarmos conhecimento, na introdução, que todo movimento começou com “doze homens em uma tipografia”, somos apresentados aos principais personagens do enredo, um a um. E aqui entra a beleza dos diários e das autobiografias usadas como principais fonte da pesquisa. Os relatos em primeira pessoa permitem apresentar personagens vivos, atuando no pano de fundo de uma história já conhecida.

Conhecida mas ainda mal avaliada, segundo Hochschild. O autor contrapõe a tese de que o tráfico de escravos foi abolido em conseqüência das mudanças econômicas que acompanharam o nascente capitalismo industrial. Fica claro que assim como os cercamentos, o dinheiro resultando do comércio de carne humana fez fortunas e financiou boa parte do desenvolvimento econômico da Inglaterra naquele período. O comércio de escravos era entendido como mais uma face da rica atividade comercial industrial britânica e dificilmente cairia por si num prazo tão curto. As novas relações de trabalho assalariado ofereceram opção ao trabalho escravo e à servidão, porém, sem a mobilização da sociedade civil inglesa e sem o efeito avassalador das revoltas de escravos no Caribe, a proposta da abolição não seria vitoriosa no conservador parlamento Inglês.

O mais interessante do livro é o registro do comprometimento dos líderes abolicionistas com uma causa que, a princípio, parecia impossível. Comprometimento e estratégia. Muitas das práticas até hoje utilizadas por grupos de pressão foram inauguradas por aqueles idealistas: petições, broches, artigos em jornais, mobilização da opinião pública, boicotes… foram ferramentas utilizadas. A luta deu resultados para além do esperado por muitos dos seus organizadores. A busca pela liberdade e pelos direitos é contagiante e os discursos contrários à escravidão abriram terreno para movimentos de trabalhadores, de mulheres e outros segmentos sociais marginalizados.

Em 2010, a palavra de ordem é MOBILIZAR. Enterrem as correntes é um verdadeiro manual de mobilização e por isso o recomendo.

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