Alguns maus hábitos de estudo freqüentes.

Resumo de: CASTILHO, G. Os pais e o estudo dos filhos, 1. ed. Lisboa: Rei dos Livros, 1985, p.173-187

Ultimamente estão-se a fazer muitas estatísticas no nosso país acerca de um problema que preocupa seriamente pais e professores: o fracasso escolar. O índice de estudantes que reprovam nalguma disciplina ou que abandonam os estudos é muito elevado. Como este fato é alarmante e constitui notícia, está a ser notícia na imprensa.
Juntamente com o índice dos reprovados publicaram-se também os resultados de alguns inquéritos acerca das causas do fracasso escolar. E, em todos, há um fator que se repete: os alunos não sabem estudar.
São muitos os estudantes – em todos os níveis de ensino – que terminam os seus estudos sem saber trabalhar por conta própria. Não tem uma idéia correta do que é estudar; desconhecem as técnicas de estudo mais elementares; possuem atitudes e hábitos de estudo que se opõem ao fim desta atividade: a aquisição do saber e a formação intelectual.
A seguir exponho uma relação de defeitos típicos na forma de estudar observados ao longo de muitos anos de experiência docente com alunos do ensino básico e unificado:
– excessiva dependência do professor e do livro de texto (pouca disposição para consulta de outras fontes: dicionários, enciclopédias…, e para o diálogo com outras pessoas, companheiros, pais…);
-estudo passivo (falta de reflexão e de sentido crítico, ausência de atividades práticas: formulação de perguntas, realização de esquemas, etc.);
– memorização: abuso ou emprego indiscriminado da memória em prejuízo da aprendizagem compreensiva (adquirir informação sem entender ou sem a compreensão necessária.);
– estudo entendido como mera obrigação imposta por outros (pais, professores…) e exercido. por conseguinte, como simples reação a incentivos ou pressões externas;
– falta de iniciativa perante as dificuldades (de vocabulário, conceitos de difícil compreensão. etc);
– ausência de planificação do trabalho a realizar: não se distribui a tarefa no tempo disponível (é muito freqüente, por exemplo, concentrar todo o estudo nos dias que precedem um exame); não há horário pessoal de estudo; não se perseguem objetivos concretos….;
– não existe auto-avaliação do rendimento pessoal obtido no estudo. Pouca auto-exigência (tanto no tempo dedicado e na intensidade do estudo como, sobretudo, na forma de realizá-lo);

– pouca ou nenhuma participação na aula (para formular perguntas, apresentar problemas, intervir numa discussão, trazer idéias e iniciativas para o trabalho de equipe, etc.);
– não estudar o suficiente, seja por desconhecimento da exigência real de cada matéria e da capacidade pessoal, seja por preguiça ou falta de esforço.
– sérias dificuldades para conseguir a concentração no estudo (o estudante é vítima freqüente das solicitações do ambiente, sendo incapaz de evitar ou vencer distrações);
– falta de hábito de estudo ou costume de trabalhar dia a dia, de um modo organizado e regular;
– não saber ler adequadamente: leitura lenta, com dificuldades habituais para uma compreensão adequada; leitura passiva (sem sublinhar o importante, sem tomar notas, sem rever e criticar o que leu);
– não saber consultar ou utilizar um livro;
– não saber expressar-se verbalmente e por escrito.
As deficiências na forma de aprender não são exclusivas dos estudantes do ensino básico e unificado. Num inquérito feito a alunos do segundo ano de oito Faculdades e Escolas Universitárias, os estudantes destacaram como dificuldades decisivas no seu primeiro ano de estudos universitários, entre outras, as seguintes:
l. Reprovação nos exames por não saberem estudar com eficácia. (40%)
2. Reprovação nos exames por não estudarem o suficiente. (38%)
3. Ter como única meta de estudo a de passarem nos exames. (38 %)
4. Falta de técnica de estudo e de organização do trabalho pessoal. (31%r)
5. Não estudar com regularidade, mas predominantemente nas vésperas dos exames. (31%)
6. Dificuldade para sintetizar: acumulação de conhecimentos não estruturados nem inter-relacionados. (30%)
7. Não saber tomar apontamentos inteligentemente e com eficácia. (26%)
O mesmo inquérito foi aplicado separadamente a professores do primeiro ano do curso de diferentes Faculdades, podendo-se assim comprovar se existia ou não alguma semelhança com as respostas dadas pelos alunos. Os professores coincidiram com os estudantes nas respostas que na relação anterior têm estes números: 2 – (36%), 6 – (36%). .Assinalaram ainda as seguintes deficiências:
– carência de conhecimentos básicos necessários para uma melhor assimilação do ensino. (50%)
– não saber distinguir entre idéias ou conceitos-chave e questões ou aspectos acessórios, nas aulas ou no estudo pessoal. (44%)
– deficiente capacidade de expressão oral e escrita.
– atitude cômoda e utilitária que os leva a interessar-se só “pelo que é necessário estudar”e a pedir que se lhes defina isto com clareza. (24%)
– não saber estudar senão os livros de texto, geralmente memorizando o seu conteúdo. (24%)
A análise da situação que acabamos de realizar permite-nos tirar conclusões.
Uma delas é a seguinte: não se pode afirmar sem mais, que a aprender, se aprende aprendendo, como lógica e segura conseqüência da prática e da idade. .A experiência obtida sem nenhuma orientação contém erros na forma de trabalhar do tipo dos que se assinalaram atrás. Saber aprender supõe conhecer e dominar técnicas de estudo muito diversas que não se podem improvisar.
Com isso não queremos negar a importância que tem o descobrir e experimentar. processos próprios de estudo. Simplesmente desejamos frisar que a inventiva pessoal, apesar de ser boa, é insuficiente. É necessário ensinar a estudar desde o começo da escolaridade, com uma orientação que se adapte ás capacidades e preferências de cada filho e que fomente o estilo pessoal. Esta orientação pode ser programada de algum modo, apresentando objetivos~ sucessivos em função das diferentes idades, mas sem convertê-la numa ‘disciplina’.
Outra conclusão é a de que, como já assinalamos noutro lugar deste livro, muitos maus hábitos de estudo são fomentados pelo método de ensino de alguns professores. Quando. por exemplo, a aula é sempre expositiva e teórica, sem fomentar ou permitir a participação dos alunos ou a aplica~áo prática do aprendido, está-se a favorecer o desenvolvimento de hábitos de estudo passivo, puramente receptivo. de memória… Pelo contrário quando o professor não está centrado exclusivamente na matéria e cria situações, na aula, que permitem a aprendizagem por descoberta e intercâmbio de experiências. está-se a fomentar o uso dc capacidades e técnicas de estudo muito diversas. Com esta última apresentação é possível, além disso, converter a aula num campo de observação e orientar o trabalho dos alunos.
.A orientação no método de estudo é assim uma responsabilidade compartilhada por pais e professores e exige um trabalho de equipe entre ambos. Um bom sistema para coordenar esta tarefa é a existência do preceptorado. Ocupar-nos-emos dele no próximo capítulo deste livro.
Este esforço conjunto de pais e professores para ensinar a estudar não deve dirigir-se exclusivamente aos estudantes mais novos ou aos que reprovam. Já demonstramos como os estudantes. incluindo os universitários, têm maus hábitos de estudo. Com um melhor método de trabalho todo o estudante pode melhorar sempre o seu rendimento.

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