Nostalgia 3 – ou Florianópolis 1950.

Beto Stodieck

Por: Beto Stodieck (Publicado no O Estado, 29/10/1971)

Espero que estas anotações não estejam inseridas na nostálgica década e que os meus leitores ainda tenham saco para mais um pouco de Florianópolis e 1950.

Aí vai: já a movimentação pública resumia-se ao Centro (até hoje Florianópolis não consegiu descentralizar-se). Alí estavam (estão) os bares, os cinemas, as boates. Na praia de Fora apenas a Cocota e o seu Xix-Xic despertavam a atenção. Os bares mais procurados eram o Atlantis (atual Crsital), Elite (Braseiro) e o Rosa (embaixo do Restaurante idem, hoje é um Banco). Aliás, só uns cinco Bancos serviam a cidade.

Os cinemas eram os mesmos – com os mesmos defeitos, pois nasceram caducos – e mais o Central e o Odeon. Os filmes custavam a passar, às vezes levavam anos para chegar até aqui (o mesmo problema hoje).

A noite entrava a dentro – para uma minoria – no Plaza (depois Paineiras). Sabino’s, Samburá (do Luiz Henrique e reduto do samba). Os mais noctívagos, freqüentavam a Barbosa, depois é que passaram para Barreiros…

O comércio era péssimo e de mau-gôsto (se bem que existia uma loja chamada ao Bom Gôsto).

As pessoas da moda eram Quininha (que morreu em desastre de automóvel), Miro Morais e Zury Machado. Todos colunistas sociais, todos mandavam e desmandavam na alta burguesia local.

Camboriú era para se ir no começo do verão e só voltar no final: a estrada era um pesadelo e quase ninguém se aventurava. Estradas praticamente inexistiam, em compensação outros meios de transporte eram mais eficientes. Por exemplo, o marítimo. O Pôrto era super movimentado com Itas e navios Hoepcke (o Carlos Hoepcke era um dos mais luxuosos navios brasileiros. Pegou fôgo na costa de Santos). E havia – sim senhor – um vôo da Cruzeiro direto, sem escala em São Paulo, pra o Rio. Saía às 7 da manhã; às 9 estava no Santos Dumont. No aeroporto subiam e desciam aviões da Varig, Sadia, TAC, Real, Cruzeiro e Loide.

Naquela época foi lançado o “magestoso (sic) Dunas Hotel”, na Lagoa. Metade da população entrou pelo cano comprando ações. Hoje, o que existem são as ruínas das colunas.

E eu sei que Florianópolis era aquêle negócio! Molenga, sem outros atrativos que não fosse a natureza selvagem e inatingível. A cidade era habitada pelo verde e o azul dispoluído (sic), pelo casario antigo e bonito.

A década de 50 – a de maior mau-gôsto do século – é a responsável por esses monstrengos arquitetônicos que aí estão.

Pouquíssimas pessoas apareciam por aqui e quando isso acontecia eram logo reconhecidas na rua e motivos para apelidos.

A cidade praticamente inexistia para o resto do Brasil. Para os que dela tomavam conhecimento, era a cidade que tem uma ponte que liga o nada ao coisa alguma.

(continua)

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Leia também: Flops na crônica ligeira de Beto Stodieck.Nostalgia 2 – ou Florianópolis 1950.

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