Nostalgia 4 (Crônica ligeira de Beto Stodieck).

Nostalgia 4.

Por: Beto Stodieck (Publicado no O Estado, 31/10/1971)

Ontem, ou melhor, na última coluna – o jornal não sai aos sábados – finalizei o negócio sobre a década de 50 em Florianópolis. Pensava que havia terminado. Relendo os três tópicos sobre o assunto, notei  que havia esquecido de alguma coisa, que aí vai.

Beto Stodieck

Nessa época a vida começava aos 18. Antes, a gente fazia as coisas da idade (eu é que era muito metido e com 10 anos já estava badalando por aí. Aliás, sei de tanta coisa porque escutava muito e a minha memória ia registrando).

O pessoal se divertia como podia, com os negócios próprios.

Fazíamos bloco de sujo no Carnaval (isso não era apenas privilégio da gurizada); brincávamos de Jane e Tarzan – as vezes aparecia a Cheeta (não sei porque a gente sempre escolhia a filha da empregada para tal papel), fabricávamos carros alegóricos – o mais bonito ganhava um prêmio – e fazíamos procissão. Nessa época eu queria ser – quando crescesse – padre ou santo. Frequentavamos muito mais a Igreja e, sempre que podíamos, entrávamos para a Cruzada Eucarística – quanto mais larga era fita pendurada no pescoço, mais importante a gente ficava. Nos bailes do Lira ou Doze, a gente dançava em roda e de mãos dadas. E a orquestra entoava um bailão ou samba. Era a domingueira, atual Hora do Mingau. Ainda me lembro da sessão da 1,30 de domingo no São José – nem sei se ainda existe. A gente ia para lá a fim de uma paquera, de um namorinho a distância. E a matinada às 10.

Na terça havia a Sessão das Moças, no Ritz. Muçher não pagava e homem, apenas Cr$0,70. E o Ritz já tinha aquele cheiro, e os filmes já eram cortados.

A vida corria mansamente, sem maiores emoções que não fôssem as naturais, que não eram poucas. As festas juninas eram festejadas, e a criança que não tivesse uma montoeira de fogos de artifícios, sentia-se humilhada. Pulávamos a fogeuira – uma vez um guri ficou com os fundilhos chamuscados (coisa que a gente nunca esquece). Papai Noel ainda existia: quano vi, pelo buraco da fechadura um vulto vermelho (que não era outra se não a minha tia) arrumando presentes de Natal, não teve dúvidas, urinei-me todo de emoção. E olha que eu devia ter uns 9 anos.

Muita coisa evoluiu. Para se ter uma idéia do ataso da época, apenas um exemplo: uma vez fui chamado na presença do Padre Conselheiro do Colégio Catarinense a fim de ser repreendido por ter dançado o Rock no Doze, pois um interno havia me dedurado. Incrível.

Leia também: Flops na crônica ligeira de Beto Stodieck.Nostalgia 2 – ou Florianópolis 1950. e Nostalgia 3 -ou Florianópolis 1950.

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