O Anti-herói do Facebook.

Não assisti ao filme “A Rede Social” no cinema porque, confesso, o tema não despertou minha curiosidade. Afinal, para mim a história do “Facebook” era mais que conhecida. Contudo, a indicação de um amigo conseguiu me motivar. Não pelos elogios à qualidade do filme, mas pela forma surpreendente como esse amigo pareceu achar correto o método Zuckerberg. Na verdade, fiquei preocupado com esse amigo – e ficarei ainda mais preocupado se um dia tivermos uma sociedade.

Assisti o filme e escrevi o comentário que vai abaixo…

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Freqüentemente, o mundo dos negócios é visto como “o” espaço privilegiado da ética utilitarista, um local onde os fracos não tem vez. Ao narrar a história do surgimento do Facebook, o filme “A Rede Social” reforça a tese. Pela badalação ao redor do fundador, Mark Zuckerberg, e pelo sucesso da marca o filme já era garantia de sucesso, principalmente entre aficcionados por redes sociais. Premiações recebidas e críticas positivas levaram ao cinema outra parcela de público, que num primeiro momento poderia pensar “é só mais um filme sobre um empreendedor mau-caráter”. Também. No fundo é uma história de ambição, boas idéias e a capacidade de gerar riqueza pela inovação, característica do capitalismo contemporâneo.

Sou dos que não acreditam que a arte tem que ser doutrinária, moralista ou engajada. Por isso, apenas quero tratar aqui o roteiro do filme como um interessante case sobre ética empresarial (business ethics). Acho válido discutí-lo com jovens que aspiram tornarem-se bilionários ou simplesmente contruirem uma carrreira promissora em qualquer ramo, não apenas no setor de tecnologia.

Para isso, o primeiro passo é reconhecer a atração do anti-herói. Quem vê o filme logo identifica quem é o pilantra da história. Mas dificilmente deixa de sentir certa admiração ou uma pontinha de inveja pelo mais jovem bilionário do mundo. Zuckerberg tem a força do justiceiro, o vingador dos nerds. Em determinado trecho do filme, o vemos tomando uma cerveja e programando enquanto os “populares” (para usar a linguagem da minha filha) curtem a vida numa festa universitária. A mensagem é cristalina.

Alguém pode comentar: “Em vez de sair por aí atirando nos desafetos, ele foi lá e fez o Facebook”. É verdade, mas esse enredo não valeria um filme. Só vale porque entre o “foi lá” e o “fez” há algumas rasteiras e conflitos onde contrastam três dos principais ramos da filosofia moral:a ética utilitarista,a ética do dever(deontológica) e a ética das virtudes. O primeiro representada pelo protagonista, o segundo pelos irmãos Winklevoss, e o terceiro pelo sócio “co-fundador”, Eduardo Saverin.

O protagonista, fica claro desde a primeira cena, age focado nos resultados. Pensa desde o princípio no que deve fazer para aumentar seu prestígio e, mesmo na relação emocional, põe em relevo lucros em capital social; avalia a ação, se é boa ou ruim, de acordo com a maximização do bem estar. Segundo essa visão utilitarista o bem está relacionado com a obtenção do máximo benefício em cada ação, enquanto o contrário seria agir mal – ou seja, produzir prejuízo. Por isso, o personagem aparenta agir sem remorsos ao “sacanear o amigo”: mesmo o deixando para trás, aumentou sua riqueza em patamar maior do que se não tivesse sacaneado.

A dúvida de um dos irmãos Winklevoss sobre entrar ou não com processo contra Zuckerberg é exemplo privilegiado da ética deontológica – o bem se alcança pelo cumprimento do dever, ainda que para isso seja necessário assumir riscos e prejuízos. Mesmo passado para trás, um dos gêmeos reluta em quebrar um código consuetudinário – a tradição de Havard – e processar um colega de universidade. Quando vê que o regulamento (código de ética) da Universidade prevê punição para o comportamento incorreto, acha-se no direito e no dever de apelar ao reitor.

O último personagem aqui analisado pode servir de exemplo da Ética das Virtudes, que usa como critério a correção das ações desejadas socialmente. Nem o dever moral, nem o valor das situaçõe, a ética das virtudes pressupõe a virtude e o vício como elemento para avaliar determinada ação. As virtudes são traço de caráter, que podem ser cultivado pelo hábito. Eduardo Saverin, no filme, é o que dá maior valor à amizade. Mostra-se particularmente atingido pelas diversas traições à relação de sociedade e parceria que tem com Zuckerberg. Mesmo contrariado em determinados momentos, aposta no projeto porque “eram sócios” e o correto era que apoiasse o empreendimento do amigo. Agir com virtude exige unidade de ser. Não é possível ser um nos negócios, outro em casa, outro nas amizades.

A interpretação rasteira e mais comum da ética utilitarista, “os fins justificam os meios”, abre espaço para ações que moldam os valores às circunstâncias. Assim, alguns podem ver no resultado final – bilhões de dólares na conta e alguns milhões doados à filantropia – justificativa plausível para o comportamento “babaca” do fundador do Facebook. Amizade, lealdade, veracidade, são deixadas de lado pelo protagonista num comportamente que deveria servir de exemplo de como não agir.

Afinal, se a arte não deve ser doutrinária, também não deve faltar ao espectador a capacidade de identificar o vilão numa história.

2 comentários em “O Anti-herói do Facebook.

  1. “babaca” fui eu que ñ conheci o Zuckerberg antes, para poder financiá-lo com uns míseros $$ e tb ser sócio dessa “boiada”!
    Ótimo artigo!

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