Sigla de Kassab será oposição a petistas em 14 cidades’

PSD estará contra o PT na maioria das capitais

(Cristian Klein – Valor Econômico, 31/05/2011)


Rota de fuga de políticos da oposição que querem se abrigar no governo federal, o PSD terá um comportamento distante do PT nas eleições de prefeituras-chave no ano que vem. Em apenas cinco das 26 capitais, o partido criado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, figura num cenário mais claro de aliança com o PT ou com grupos políticos aos quais petistas estão alinhados. Todas pertencem ao Nordeste: Aracaju, Fortaleza, Maceió, Salvador e São Luís. Em sete capitais, a situação está indefinida ou é de ambiguidade, entre as quais as três maiores: São Paulo, Rio e Belo Horizonte. Em mais da metade, 14 capitais, o PSD deverá marchar contra o PT. É o mesmo número de cidades em que a legenda surge com pré-candidatos.

Nas 14 capitais onde estão em lados opostos, a situação reflete a incompatibilidade entre petistas e adversários tradicionais de mudança para o PSD. São egressos de partidos como o PSDB e o DEM que, se no plano nacional podem mudar de posição sem muita turbulência, não tem como fazer com que o eleitor esqueça o histórico de rivalidade sem grande estranhamento.

Teresina, no Piauí, é um caso exemplar. Ali, a flexibilidade do PSD é grande. O futuro presidente estadual do partido, o deputado federal Júlio César Lima, tenta convencer o colega da Câmara Hugo Napoleão (ambos de saída do DEM) a concorrer à prefeitura. Como Napoleão está reticente, Lima afirma que o PSD pode compor com o PTB, do prefeito Elmano Férrer; com o PSB, que cogita lançar o vereador Rodrigo Martins, sobrinho do governador Wilson Martins; e com o PSDB, de Firmino Filho. “Em política tudo é dinâmico. Vamos ver quem tem mais aceitação popular”, diz. Uma aliança com o PT, contudo, é praticamente descartada. “Até temos uma relação com o ex-governador e senador Wellington Dias, mas com o partido, o PT, fica mais difícil pela nossa história”, afirma Lima, ao citar sua trajetória e a de Napoleão. Ambos pertenceram à Arena e a todas as siglas que dela descenderam: PDS, PFL e DEM.

Em Palmas, no Tocantins, a senadora Kátia Abreu deverá se lançar à prefeitura. Sua ida para o PSD foi marcada pelo anúncio surpreendente da adesão à base do governo federal, ao qual se opôs ferrenhamente durante os anos Lula. Mas, na capital, ela e o PT ainda se mantêm a léguas de distância. Sinal disso é o convite de Kátia Abreu para que o prefeito Raul Filho, expulso do PT, ingresse no PSD. O prefeito tornou-se persona non grata no partido depois que, no ano passado, apoiou a candidatura de João Ribeiro (PR) ao Senado em detrimento à do correligionário Paulo Mourão.

Nas três capitais do Sul, a relação também será de oposição entre PT e PSD. Fruto do modo como o partido de Kassab está entrando na região, pelas mãos de rivais tradicionais dos petistas.

Em Florianópolis, Santa Catarina, a chamada Tríplice Aliança (PSDB, PMDB e agora PSD no lugar do DEM), que sustenta o governador Raimundo Colombo, líder do PSD no Estado, tem os petistas como adversários históricos. Em Curitiba, o PSD fará uma composição com o PSDB e o PSB do prefeito Luciano Ducci, que busca a reeleição, ou terá candidatura própria, que pode ser a do ex-deputado federal tucano Gustavo Fruet, que se notabilizou nacionalmente como inimigo petista durante as investigações do escândalo do mensalão, em 2005. Em Porto Alegre, o PT não deve se aliar nem ao prefeito José Fortunati (PDT), que dirá ao PSD caso a legenda seja controlada pelo PP ou pelo ex-governador Germano Rigotto (PMDB).

A ambiguidade na relação entre PT e PSD prevalece em sete capitais, três das quais são as maiores. O prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, de casa, dá exemplo da estratégia camaleônica que delineou para o partido, que segundo ele é “independente”, nem de esquerda, centro ou direita. Ao mesmo tempo em que se diz fiel a uma possível candidatura de seu aliado tucano, o ex-governador José Serra, Kassab constrói pontes que permitam uma aliança com o PT. Reflexo disso é o apoio ao nome do seu secretário do Verde, Eduardo Jorge (PV), ex-petista.

No Rio, a situação também é indefinida, mas por outras razões. O amplo bloco de apoio à reeleição de Eduardo Paes (PMDB) hoje inclui o PT. Mas a entrada do ex-candidato a vice-presidente de José Serra, Indio da Costa, como vice na chapa de Paes pode levar ao rompimento e a um voo solo dos petistas.

Nem tanto pela origem dos integrantes do PSD ou pelo histórico de rivalidade com o PT, a situação em Belo Horizonte é indefinida por natureza, para quase todos, dado o imbróglio decorrente da eleição de Márcio Lacerda (PSB), em 2008, apoiado tanto por petistas quanto por tucanos. A união improvável, que agora tende a se desfazer, torna o cenário incerto.

O deputado federal Geraldo Thadeu (ex-PPS) resume o farto cardápio do PSD. A sigla pode lançar seu colega Alexandre Silveira (também de saída do PPS). Pode apoiar o prefeito caso ele fique com o PSDB. Pode também com o PT. E o nome da oposição, o deputado Leonardo Quintão (PMDB), estaria descartado? “Por que não?”, pergunta Thadeu, para acrescentar. “Eleição municipal tem características próprias. O próprio Aécio não apoiou o Márcio Lacerda sendo o vice do PT?”

Em Campo Grande, o PSD está nas mãos de Antônio João Hugo Rodrigues, dono do maior grupo de comunicação do Mato Grosso do Sul, que quer realizar o sonho de ser prefeito. Devido a atritos, uma aliança com o bloco capitaneado pelo governador André Puccinelli (PMDB), em torno da sucessão do prefeito Nelsinho Trad, é inviável. A aproximação com o PT é antiga. Antônio João foi suplente e exerceu o mandato de senador por quatro meses em substituição a Delcídio Amaral. Mas uma coligação com o partido no Estado passa pelas pretensões de outro cacique, o ex-governador Zeca do PT, com quem também já teve desavenças.

Diante desse quadro, o empresário neófito na política mostra suas preocupações. “Pretendo disputar com coligação. Meu problema não é dinheiro. É que não tenho tempo de TV”, diz.

Como dois terços do tempo de propaganda gratuita no rádio e na TV são baseados na bancada eleita para a Câmara dos Deputados na eleição anterior, o PSD em 2012 terá direito a apenas o tempo mínimo: um terço dividido igualmente entre todos os partidos ou coligações que apresentarem candidatos.

A dificuldade não impede, pelo menos por enquanto, que em 14 capitais haja pretensões de candidatura própria do PSD.

Isso não ocorre, contudo, nas cinco cidades em que a sigla está afinada com o grupo do PT. Nestes casos, o PSD sabe que irá na esteira dos petistas ou de seus aliados.

Na Bahia, por exemplo, o deputado federal José Carlos Araújo (ex-DEM) afirma que o partido está apenas começando e não há condições para lançar um nome. No máximo, tentar emplacar o vice na chapa petista, que seria o deputado estadual Alan Sanches, de saída do PMDB. “O partido é novo. Não dá para ter pretensões na capital. Mas, no interior, vamos ter candidatos próprios com o apoio do PT”, afirma.

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