História mal contada: onde andam os historiadores?

Jefferson Fonseca

Quem já enfrentou uma sala de aula sabe do que estou falando. Quase nunca é fácil despertar o interesse dos jovens pela História. Numa sociedade cada vez mais instantânea, estudar o passado parece não ter sentido. Será? Então, por que cinco dos dez livros de não-ficção na lista dos mais vendidos da Revista Época são livros de História?! Por que os documentários históricos, as novelas e os filmes de época despertam tanto interesse?

A resposta talvez seja um chamado de atenção. Tão importante quanto pesquisar e estudar a história é saber contá-la. Não é à toa que dos cinco livros de que falei acima, quatro foram escritos por jornalistas. Para salvar a pele dos historiadores está lá a Mary Del Priore, talvez a pioneira em escrever uma história pitoresca, que desperta a curiosidade do leitor.

Isso quer dizer que estamos perdendo espaço para os jornalistas? Não é bem assim. Na verdade os jornalistas estão ocupando o espaço que deixamos vazio. A pesquisa histórica continua sendo feita por historiadores. Basta verificar a bibliografia utilizada e citada por Laurentino Gomes e Leandro Narloch, por exemplo. Ambos fazem uma saudável vulgarização da história: divulgam o conhecimento que poderia ficar restrito ao público especializado e dessa forma contribuem para a desmistificação de certas invenções da historiografia e a disseminação do conhecimento.

Não é um trabalho de menor importância. Alguns autores de livros didáticos, por exemplo, não se dão ao trabalho de conferir se as versões que continuam propagando têm apoio nas pesquisas mais recentes – o caso da Guerra do Paraguai é um exemplo. Outros deliberadamente escrevem uma história doutrinária, que é a que mais vende! Sinal de que os professores que escolhem os livros que serão comprados pelo MEC já foram doutrinados anteriormente nas escolas e nos bancos universitários. Um ciclo vicioso que a vulgarização pode ajudar a quebrar.

Fica claro que falta na formação de nossos historiadores storytelling, saber contar histórias – em livros ou na sala de aula. Caberia mesclar oficinas de escrita e de narração de histórias ao currículo tradicional. Além de contribuir ainda mais com a vulgarização da história, ao adquirir essas competências o profissional terá outro campo de trabalho aberto, o mercado editorial.

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