Da Revista Veja: “Ministério de aloprados”

(Hugo Marques e Gustavo Ribeiro – Veja – 27/06/2011)

 

As novas revelações sobre o escândalo contaminam o governo Dilma Rousseff. Agora são dois os envolvidos que ocupam cargos no primeiro escalão

 

 

Ideli Aloprada Sarney

 

Na semana passada, o Ministério Público Federal decidiu reabrir as investigações sobre o caso do Dossiê dos Aloprados depois da revelação de que o atual ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, participou ativamente da trapaça eleitoral que, em 2006, tentou envolver o tucano José Serra, então candidato ao governo paulista, num esquema de fraudes no Ministério da Saúde. A novidade, publicada na edição passada de VEJA, movimentou o Congresso e provocou calafrios em dirigentes do PT. A oposição pediu a instalação de uma CPI. Os procuradores encarregados do caso pretendem ouvir o petista Expedito Veloso, um dos envolvidos no escândalo, que confirmou que Mercadante não só avalizou a operação como ajudou na arrecadação do dinheiro sujo que financiou a fraude. O PT, como era de esperar, preferiu unir forças para impedir qualquer investigação – e por uma razão compreensível: além de Mercadante, existem figurões do partido envolvidos no caso que ainda permanecem no anonimato. E gente de primeira linha, como a ministra Ideli Salvatti, de Relações Institucionais.

Cinco anos atrás, a ministra era líder do PT no Senado. Seu comportamento servil e sua disposição para cumprir qualquer tipo de missão partidária, inclusive as não republicanas, credenciaram-na como uma espécie de embaixadora do governo na Casa. Era uma interlocutora privilegiada, cuja fidelidade sempre agradou a Lula e que foi recompensada, na gestão Dilma Rousseff, com a recente nomeação para um dos gabinetes mais influentes do Palácio do Planalto. Hoje, Ideli é a responsável por comandar as negociações com os parlamentares, até mesmo da oposição. Ela cumpre uma agenda que dá prestígio, mas que requer o mínimo de arestas. E é aí que reside o problema de Ideli – justamente devido à devoção com a qual realizou as tais tarefas partidárias, sobretudo as não republicanas. Em 4 de setembro de 2006, onze dias antes da prisão dos aloprados que se envolveram na compra do dossiê urdido para prejudicar o tucano José Serra, Ideli participou de uma reunião, no gabinete de Mercadante, com Expedito Veloso, Osvaldo Bargas e Jorge Lorenzetti. Na época, os três aloprados já alinhavavam os detalhes finais da fraude, que terminaria como um dos maiores fiascos da história.

 

Logo depois do encontro, do gabinete da senadora foi iniciada a preparação do que deveria ser a etapa derradeira do plano – a publicação do falso dossiê. As negociações do PT com os empresários que atuariam na farsa já estavam acertadas. Os criminosos queriam 20 milhões de reais pelo serviço, mas acabaram aceitando o valor de 1,7 milhão de reais oferecido pelo partido, dinheiro que Mercadante se comprometeu a conseguir com a ajuda do ex-governador Orestes Quércia, segundo as revelações de um dos participantes da reunião, o bancário Expedito Veloso. Na reunião, os cinco – Mercadante, Ideli, Expedito, Lorenzetti e Bargas – manusearam uma lista com números de cheques e fotos de um empresário já falecido, que, na montagem da história, seria apresentado como elo da quadrilha com os tucanos. Uma cópia do material foi deixada com a senadora. E ela deu início ao que deveria ser a apoteose do trabalho: procurou jornalistas interessados em divulgar o conteúdo, exibiu os papéis e disse que aquilo era apenas uma pequena amostra da munição que o PT tinha para fulminar os tucanos. Ela conhecia todos os detalhes do dossiê e deixou sua assessoria à disposição para ajudar no trabalho de divulgação. A senadora, aliás, não escondia os motivos de seu empenho: as revelações, segundo ela, atingiriam Serra e beneficiariam o PT na eleição em São Paulo, mas também repercutiriam na disputa presidencial em favor da reeleição do presidente Lula.

 

Na semana passada, indagada sobre o encontro, a ministra teve um surto de amnésia. “Sempre participei de reuniões com o ex-senador Aloizio Mercadante. Afinal, ele era líder do governo e eu era líder da bancada do PT, o partido do governo”, disse Ideli. Mas é sobre a presença dos aloprados em seu gabinete? “Não fiz nenhuma reunião com Expedito Veloso ou Osvaldo Bargas”, acrescentou a ministra. Estranho. O próprio Aloizio Mercadante confirmou a reunião. Em depoimento à Policia Federal, que o senador prestou em 2006 na condição de simples testemunha, disse que o encontro aconteceu em seu gabinete no Senado, do qual participaram Bargas, Expedito e Ideli, e que, por coincidência, o assunto discutido foi a suposta fraude no Ministério da Saúde na gestão de José Serra. Mas ninguém, garantiu o então senador, jamais falou nada a respeito de montagem de dossiês. Era apenas uma reunião normal de avaliação política. Apenas isso.

 

A ministra Ideli Salvatti é mais uma figura importante do partido a ingressar no rol dos aloprados – taxinomia que o presidente Lula usou para demonstrar sua surpresa com a ação dos colegas do PT que se envolveram na trama. Em outra coincidência daquelas que parecem perseguir os petistas, na semana passada, o ex-deputado Carlos Abicalil chefe do partido em Mato Grosso e atual secretário do Ministério da Educação, foi convidado a trocar de cargo, numa espécie de promoção. Destino: ser justamente o número dois no ministério de Ideli Salvatti. As revelações feitas por Expedito Veloso mostram que Abicalil e Ideli tem afinidades que vão muito além da filiação partidária. Ele foi autor da ideia de envolver Serra com empresários golpistas de seu estado. Ela atuou na articulação e divulgação da farsa. O ex-deputado e provável “vice-ministro” também esteve na linha de frente de outra armação: o complô que detonou a campanha de uma colega de partido, a ex-senadora Serys Slhessarenko, e do tucano Antero Paes de Barros, numa fraude anterior e similar ao que se pretendia fazer em São Paulo. Expedito Veloso revelou que o hoje senador Blairo Maggi (PR-MT) pagou 2 milhões de reais para viabilizar a farsa mato-grossense. “É bom lembrar que o Abicalil e a Ideli sempre estiveram ao lado de corruptos, como os acusados do mensalão”, disse Antero Paes de Barros, que vai ingressar com uma representação no Conselho de Ética contra Blairo Maggi.

 

Expedito Veloso já revelou que tem gravações que podem comprovar a exata participação de cada um dos aloprados. Na semana passada, o bancário foi procurado para falar do assunto e enviou um recado enigmático: “Procurem o PT”. “Agora, fica claro que a reunião da Ideli com o Mercadante era para definir as missões de cada um dos aloprados”, disse o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), que pediu ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que reabra a investigação sobre a participação dos ministros petistas no escândalo. Na quarta-feira passada, Mercadante se reuniu com a presidente Dilma Rousseff. Ficou acertado que, na terça-feira, ele dará explicações no Senado. Dilma quer evitar a repetição do erro estratégico que contribuiu para a demissão de Antonio Palocci da Casa Civil. Acusado de enriquecimento ilícito, Palocci demorou para se manifestar publicamente sobre as denúncias. Ao fazê-lo, não deu explicações convincentes. O governo não se pronunciou sobre a presença de um aloprado no comando de um ministério. Agora, com as revelações sobre Ideli, são dois.

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