“O risco para os outros de um PT na defensiva”, por Rosângela Bittar (Valor Econômico)

(Rosângela Bittar – Valor Econômico, 30/11/2011)

Quando o Partido dos Trabalhadores se volta contra a imprensa, de forma insistente e um tanto ansiosa, como agora, é porque que está na defensiva. Uma fase em que o partido não pode, ou não quer, assumir suas preocupações como elas são de fato: manter e se possível ampliar espaço na reforma ministerial, prevista para o início de 2012, a aproximação do julgamento do mensalão e o câncer de Lula. É disso que se trata, uma vez que controlar os meios de comunicação, seja sob que argumento, razão ou fórmula for – no momento é “proteger” o conjunto da mídia do domínio das empresas de telecomunicações -, não é um problema real nem premente.

Se conseguir pegar a mídia com seu afã, tanto melhor. É um desejo que acalenta desde que assumiu o poder federal e, no comando, passou a se incomodar com o contraditório. Mas esse é um desejo do PT e de petistas, alguns deles até ontem arautos da liberdade de imprensa. O controle da mídia, porém, não está na agenda do governo, desde que a presidente Dilma Rousseff assumiu o Palácio do Planalto.

O PT insiste porque marca uma presença fácil no debate, faz barulho, mantem-se na onda e pode desviar-se de compromissos ou exposição pública em questões que lhe são muito caras. O partido do governo federal ataca para criar uma crosta de proteção contra mísseis que ainda não foram atirados e outros que já passaram raspando sobre seus ombros. Defende-se, em primeiro lugar, da avaliação negativa do governo Lula que representou a queda em série, sob suspeita de corrupção, dos ministros indicados pelo ex-presidente a este governo. Decididamente, o PT abominou a faxina ética porque expôs as próprias mazelas e as da aliança partidária que o sustenta no poder.

Defende-se, também, da passada (para não expor Lula) e da futura (para não cair nela) reforma ministerial. Para o partido, melhor seria que não houvesse reforma alguma, mas, havendo, que fique com a melhor parte, amplie seus domínios. O PT quer, por exemplo, não perder absolutamente nenhum dos postos que ocupa entre os 38 cargos de ministro, o que engessará, se a presidente seguir esse caminho, qualquer tentativa de dar racionalidade administrativa ao governo. Isso, segundo o consultor de gestão Jorge Gerdau, exigiria o enxugamento da máquina.

O PT tem 15 ministros: Casa Civil, Ciência e Tecnologia, Educação, Justiça, Pesca, Saúde, Comunicações, Desenvolvimento Agrário, Desenvolvimento Social, Planejamento, Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fazenda, Defesa, Secretaria de Direitos Humanos, Secretaria da Igualdade Racial, Secretaria de Políticas para as Mulheres, Secretaria de Relações Institucionais, Secretaria-Geral da Presidência e verticalmente todos os cargos importantes desses ministérios e secretarias, além da presidência das principais estatais que, todos sabem, valem muito mais eleitoralmente que qualquer ministério.

O PMDB, parceiro de chapa de Dilma na eleição, ficou com a Agricultura, Previdência, Minas e Energia, Turismo, Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência. Na avaliação de um especialista em contagem de votos do partido, nenhum desses cargos permite ao PMDB fazer um só vereador nas eleições de 2012. Até porque o PMDB não conseguiu se impor, como o PT, e as áreas que comanda no topo estão ocupadas na base por aliados diversos, vetados pelo PT em seus ministérios.

O PSB ficou com 2: Integração Nacional e Secretaria de Portos; o PCdoB ficou com o Esporte e um só cargo importante, a presidência da Embratur; o PR recebeu os Transportes, o PP o Ministério das Cidades, e o PDT o Ministério do Trabalho.

Além de evitar a perda de alguns lotes pela junção de pastas que carecem de sentido desde o nascedouro, o PT cobiça a capitania alheia. É visível a complexa relação do partido com o Ministério do Trabalho que, nas mãos do PDT, teria favorecido mais a Força Sindical que a CUT, nos anos Lupi, embora todas elas tenham se locupletado não só pelo aumento dos recursos recebidos como pela dispensa de prestação de contas de sua aplicação.

Os partidos da base aliada estão ainda se medindo nessa reforma. O PMDB sabe que o PT não quer subtrações mas adições, e olha os movimentos do partido à distância. A qualquer momento, se chamado a conversar, o partido do vice-presidente Michel Temer dirá o que pretende: um ministério que possibilite fazer algo pelo país e por sí próprio, e o ministério que o PMDB gostaria de ocupar, como de resto todos os demais, PT inclusive, é o das Cidades.

O PT não quer deixar o ministério da Educação, de onde sairá seu ministro para disputar as eleições municipais. O ministro está trabalhando para emplacar em seu lugar o secretário executivo que, como ele, faz parte da entourage que o governador e ex-ministro Tarso Genro foi deixando por onde passou. Talvez o PT queira fechar questão nessa substituição.

O partido está na defensiva também porque não consegue se livrar do fantasma do mensalão, que pode surgir das cinzas no ano eleitoral. Agora, o principal réu, José Dirceu, já assumiu as rédeas partidárias, comanda o PT, orienta, é chamado a ajudar os que, denunciados, se enfraqueceram no cargo que ocupam, entre eles o mais notório é, hoje, Agnelo Queiroz, governador do Distrito Federal. O único nesse tipo de cargo atingido por denúncias, como ex-ministro de Lula. Não é momento, para o PT, de ter Dirceu novamente na berlinda.

O ministro relator do mensalão já concluiu a audiência de testemunhas e deve marcar julgamento para o primeiro semestre de 2012. Só para ouvir os advogados de defesa serão gastos três dias, prevê-se, e o PT quer chegar politicamente fortalecido, dono do governo, a esse momento.

Está também inseguro o partido com a doença do ex-presidente Lula, que precisou se afastar temporariamente da linha de frente do embate eleitoral e das garantias que o PT precisa para manobrar o governo. Quando o ex-presidente retomar a liderança do processo, no início do ano que vem, pode ser tarde para alguns pleitos.

Essas evidências demonstram que o que menos preocupa o partido, hoje, é fazer um marco regulatório para não deixar “o setor das telecomunicações, com seu poder econômico, sufocar a mídia tradicional”, como alegou o presidente da legenda, Rui Falcão, em artigo no jornal “O Globo” desta segunda-feira. Mas é o que o ocupa.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

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