Projeto do PSD pode morrer na praia.

(Raymundo Costa – Valor Econômico – 13/12/2011)

A última pesquisa Datafolha sobre a eleição de São Paulo deu uma certeza a dirigentes do PSD: sem mais tempo no horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão, o partido “fica meio fora do jogo” pela prefeitura da maior cidade do país. A aliança com o PSDB também está mais distante, à medida que o PSD tem pouco ou quase nada a acrescentar ao eventual parceiro tucano.

Sem rádio e tevê, o PSD poderia somar, numa aliança com os tucanos, se tivesse um nome de alta competitividade. Esperava-se que esse nome pudesse ser o do vice-governador Guilherme Afif Domingos, que voltou à política, após 16 anos de ausência, com bom rendimento nas eleições de 2006 para o Senado. Pois bem, no Datafolha ele não passou dos 3% das intenções de voto.

Afif não é candidato arrasa-quarteirão, mas a avaliação que o eleitorado faz da gestão de Gilberto Kassab também não ajuda: apenas 20% dos paulistanos avaliam o governo Kassab como bom ou ótimo. Além disso, 72% dos entrevistados responderam que o prefeito fez menos pela cidade do que eles esperavam. Nada estimula os tucanos a querer uma aliança com Kassab, mas o que o PSD é a questão do tempo de rádio e televisão.

No PSDB o sentimento é o mesmo. Segundo um dirigente tucano o que a pesquisa Datafolha mostrou para o partido é que “não há certeza de que o apoio de Kassab é uma coisa positiva, e além disso, ficou comprovado que o Afif não é melhor que os outros”. Os pré-candidatos tucanos estão no mesmo patamar ou em situação bem melhor que o vice-governador, caso de Bruno Covas e seus 6%. Enfim, um cenário favorável às prévias do PSDB, cuja campanha pode tornar mais conhecidos seus candidatos.

Com quase um ano ainda pela frente, até as eleições, o PSD acha que a pesquisa é o menor de seus problemas. Em 2004, a atual senadora Marta Suplicy contava com uma aprovação parecida com a de Kassab, a um tempo ainda menor da eleição. Ela perdeu o cargo para o tucano José Serra, mas chegou perto da reeleição numa disputa em que se deu ao luxo de dispensar o apoio do PMDB.

Haveria, assim, tempo de sobra para Kassab se recuperar, e o prefeito, segundo os pessedistas, ainda contaria com uma “reserva técnica” a ser explorada na tentativa de reverter a situação atual (o portfólio habitual de inaugurações, investimentos etc). Mas sem tempo de rádio e televisão, o PSD entra no jogo em desvantagem e o prefeito Kassab sem as condições ideais para negociar a cabeça de chapa. Essa é a maior vulnerabilidade do PSD, segundo as avaliações mais realistas entre seus dirigentes.

Mais uma vez o tempo joga contra o PSD, como jogou na corrida pelas assinaturas necessárias para o partido obter o registro provisório. Na melhor das hipóteses, o TSE julga seu pedido em março, mas é possível, e mesmo provável, que o julgamento se estenda abril adentro. Justamente o período crucial das negociações para a formação das alianças eleitorais. E antes do julgamento, o PSD não terá a menor segurança em relação ao tempo de que disporá no rádio e TV.

À primeira vista, os antecedentes jogam contra a pretensão do PSD: quando o PSOL foi criado, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) negou um pedido idêntico. Mas à época não havia a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a fidelidade partidária que abriu a janela para deputados deixarem seus partidos, desde que para fundar outra sigla.

O PSD quer que a Justiça Eleitoral reconheça o direito do partido a um tempo de rádio e televisão proporcional a sua bancada na Câmara – 52 deputados eleitos, nem todos no exercício do mandato. Isso daria um tempo no horário eleitoral gratuito igual ou ligeiramente superior ao do PSDB. Os pessedistas pediram igual tratamento no que se refere à distribuição do fundo partidário, mas abririam mão desses recursos, se lhes fosse assegurado o tempo de mídia.

Em compasso de espera em relação ao futuro, os pessedistas evitam comentar a possibilidade de compor uma chapa com o candidato a vice-prefeito, até para não sinalizar à Justiça Eleitoral que não estão confiantes no julgamento favorável a seu pedido.

Em relação aos adversários, entendem que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva acertou em cheio ao retirar a candidatura da senadora e ex-prefeita Marta Suplicy e levar o PT a se fixar logo no nome do ministro Fernando Haddad (Educação).

Se Marta ainda disputasse a indicação do PT à candidatura a prefeito, seu nome teria sido incluído na pesquisa Datafolha e provavelmente apareceria em pé de igualdade com José Serra em termos de rejeição – 35% dos eleitores responderam que não votam no tucano de jeito nenhum.

A rejeição a José Serra é outra má notícia para a aliança que hoje governa o município e o Estado de São Paulo. Ele ainda é o tucano mais bem posicionado nas pesquisas, com 18% das intenções de votos, o que é pouco para quem já foi prefeito, governador e duas vezes candidato a presidente da República.

Nas condições atuais, Haddad é o favorito na disputa pela sucessão de Gilberto Kassab. Ele entra com 4% na pesquisa, a expectativa de chegar ao desempenho histórico do PT na cidade (cerca de 30%) e, segundo o Datafolha, com um padrinho muito forte: 48% dos paulistanos entrevistados declararam que podem votar num candidato indicado pelo ex-presidente da República.

Os pessedistas acham que Haddad já está no segundo turno, pelas condições atuais, mas também entendem que ele é um candidato vulnerável e que não bastará o apoio de Lula para o PT recuperar o governo da maior cidade do país. O argumento é que são eleições diferentes. Na eleição para presidente, Lula acenava com a continuidade (Dilma Rousseff) de uma gestão bem avaliada (a dele próprio).

Depois de agitar a política partidária em 2011, o PSD pode ter vida curta. E se não eleger o prefeito de São Paulo, ainda ficará sem a sua principal fortaleza partidária e Kassab – seu arquiteto – sem mandato.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

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