Bons líderes públicos fortalecem a AL, por Iñigo Sáenz de Miera

Valor Econômico – 05/03/2013

O motor do desenvolvimento das sociedades é a força que reside em cada uma das pessoas que as integram – na realidade, em cada uma das pessoas que formamos. Mas a condição necessária para que essa força gere crescimento é o bom e correto desempenho das instituições, sobretudo as públicas. Para que uma sociedade experimente longo período de desenvolvimento sustentável, suas instituições públicas precisam funcionar bem, de maneira adequada ao papel que lhes é correspondente e desempenhando esse papel com transparência e eficiência.

As crises institucionais quase sempre ocupam um lugar de destaque quando estudamos as razões das crises econômicas e sociais. A crise na qual boa parte do mundo está imersa hoje é prova disso. Qual a relação entre a resistência da América Latina à crise financeira e o bom funcionamento de suas instituições bancárias e regulatórias? Que parte da solução dos problemas europeus depende do que acontecerá com as jovens instituições da União Europeia?

O ex-presidente chileno Ricardo Lagos abordou algumas dessas questões na Brown University, durante a inauguração da primeira edição do Programa de Fortalecimento da Gestão Pública na América Latina da Fundação Botín. Para ele, a crise financeira mostrou que a solução está na política. Assim, para onde foi direcionado nosso olhar em busca de soluções? Para as instituições públicas, fundamentalmente.

Para que uma sociedade experimente longo desenvolvimento sustentável, suas instituições públicas precisam funcionar bem, de maneira adequada ao papel que lhes é correspondente e desempenhando esse papel com transparência e eficiência.

Por isso, temos um desafio urgente: conseguir que nossos melhores profissionais se dediquem ao serviço público, comprometidos com o desenvolvimento de suas sociedades para servi-las, precisamente, desde as instituições.

É importante identificar os melhores jovens universitários que têm essa vocação. É fundamental que eles sejam bons, e que estejam entre os melhores. Não apenas por que assim eles terão mais impacto em seus locais de atuação, mas também porque eles poderão contagiar positivamente o ambiente em seu entorno.

A tarefa não é fácil. Pesquisa da Fundação Botín realizada em dezembro de 2012 sobre “O Prestígio da Profissão” apontou que, entre 100 funções, duas das menos valorizadas foram as de deputado ou funcionário público. A amostra de 1 mil entrevistados reflete de modo eloquente que essas duas profissões estavam entre as 15 mais desvalorizadas, muito atrás de médicos, engenheiros, professores, administradores, jornalistas, advogados ou psicólogos.

Mesmo assim, sabemos que há muitos profissionais interessados na área de gestão pública. Seria suficiente então apenas detectar essas vocações e cuidar para que elas sejam concretizadas em compromissos e decisões pessoais? Isso não é o bastante, pois essa não é uma tarefa simples. É preciso dar a esses estudantes as ferramentas para que, no futuro, quando eles se tornarem servidores públicos, imprimam em suas instituições eficácia e transparência. Precisamos ajudar esses profissionais a treinarem os músculos que eles utilizarão no exercício de suas profissões.

Os conhecimentos necessários foram adquiridos por esses jovens em suas universidades. Mas devemos ajudá-los a encontrar bases éticas sólidas, a desenvolver sua inteligência emocional e social, e a trabalhar em rede. A ética, além de sólida, precisa ser prática, útil. É preciso que eles saibam antes quais dilemas vão encontrar, e ter à mão argumentos e motivos para solucioná-los colocando o interesse geral antes do particular quando lhes forem apresentadas ocasiões para fazer o contrário.

As inteligências emocional e social serão necessárias para que esses profissionais possam se conhecer e se gerenciar, para reconhecer e resistir à frustração quando a sofrerem, para detectar a euforia ou o medo quando precisarem usar esses sentimentos em seu favor, para que se atrevam a inovar, colocar-se no lugar do outro e chegar a acordos. Há 20 anos não sabíamos o quão importante era tudo isto, mas hoje sabemos que isso não pode ser deixado de lado em nenhuma profissão, e de nenhum modo no serviço público.

Desde que Manuel Castells escreveu seu famoso livro “A Sociedade em Rede”, a realidade seguiu lhe dando razão. Somos redes, e trabalhar em rede – dividindo conhecimentos, oportunidades, problemas e projetos – é multiplicar o fruto dos esforços. Se conseguirmos que alguns destes futuros servidores públicos da América Latina estejam e trabalhem em redes que transcendam seus países, multiplicaremos a eficiência de qualquer estratégia de fortalecimento das instituições.

Detectar aqueles que, entre os melhores estudantes da América Latina, têm vocação para o serviço público, cuidar dessa vocação para que ela seja convertida em compromisso, e ajudar a esses futuros servidores públicos a desenvolver as ferramentas que lhes permitirão ser eficazes e eficientes são os objetivos do Programa de Fortalecimento da Gestão Pública da Fundação Botín.

Iñigo Sáenz de Miera é diretor-geral da Fundação Botín para o fortalecimento da gestão pública na América Latina

 

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