Fornecendo moinhos de vento

O posicionamento de uma ideia define os termos do debate e faz toda a diferença na reação do público. No caso do contingenciamento das verbas da educação estamos presenciando essa afirmativa na prática. Na minha opinião, trata-se do pior erro de estratégia de comunicação do governo federal até o momento.

A esquerda perdeu base social e os sindicatos estão enfraquecidos. Com dificuldades de mobilização, a melhor maneira de colocarem o bloco na rua é contando com o movimento estudantil. Então o ministro Weintraub lhes deu a munição que precisavam: fez de tudo para que o “contingenciamento” virasse “corte de verba” e que este corte fosse vendido como “perseguição”. Diante dos “cortes” e da “perseguição” ficou fácil convencer os alunos a irem para a rua protestar.

A mobilização estudantil tem a vantagem de levar rapidamente grupos volumosos à rua. A imprensa amplifica atos e provoca o efeito manada, pois autorização para matar aula e estar com o grupo atrai jovens. Então veremos novas pautas nos protestos: a Previdência estará nos cartazes da rapaziada.

O roteiro começou de trás para frente, com o ataque às humanas e com uma certa arbitrariedade nas instituições atingidas – “perseguição”. Seguiu-se a informação sobre um “corte” enorme atingindo algumas universidades federais, novamente sem um critério aparente. (Nesta etapa, uma boa tese foi queimada por conta de um argumento infeliz e de uma ação desastrada. A tese de que seria proveitoso inverter a pirâmide do investimento para alocar mais recursos públicos na educação básica do que no ensino superior é boa. Mas sua aplicação depende de uma política de médio prazo, não de uma canetada).

Depois veio a notícia de que o “corte” atingiria praticamente todas as instituições federais de ensino. Então, finalmente, o governo veio à tona para tentar explicar a diferença entre corte e contingenciamento. Tarde demais. Nesta etapa a tese sumira e os moinhos de vento já estavam à disposição da oposição.

Em 2012 aconteceu a maior greve da história nas instituições federais de ensino. Foram cinco meses de paralisação. Mas a vida seguiu e a sociedade não sentiu muito a falta deste serviço – caso contrário, a pressão popular teria acelerado a negociação. Na época, a pauta dos grevistas era eminentemente salarial, acompanhada de críticas ao Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI). Ou seja, era difícil buscar a adesão dos estudantes, principalmente com o aparelhamento das entidades UNE, UBES e similares – todas na folha do governo petista.

O discurso agora é fácil. Ninguém gosta de “corte”. Ninguém quer correr o risco de ficar sem aula (apesar de alguns não ligarem em perder aula) porque o governo “persegue” a educação. Então, basta chamar assembleias e combinar o jogo com os professores. Estes continuarão suas aulas, para não configurar greve, nem falta, mas vão liberar os estudantes para as manifestações. Está pronta a onda.

A dinâmica das manifestações de 2013 nos mostram como uma onda como essa pode virar um tsunami. Não acredito que chegue àquele nível de adesão, mas certamente foi um alento para a extrema esquerda essa bola levantada pelo governo. Eles, que andavam cabisbaixos,vão conseguir colocar gente na rua, gerar fato, criar factóides, elevar a moral da tropa.

Logo os “cortes” da educação irão para segundo plano e os discursos vão fazer as manifestações incorporarem a luta contra a Nova Previdência. Então veremos jovens nas ruas lutando contra seu próprio futuro.

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